Canetas para emagrecer: o que precisa de saber
Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Saxenda não são vacinas. Para que servem, riscos, receita, falsificações e o que perguntar antes de começar.
Por Redação Farmazzine

Nas conversas, nas redes sociais e até ao balcão da farmácia fala-se de «vacinas para emagrecer». O nome pegou, mas está errado. Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Saxenda não são vacinas: não treinam o sistema imunitário nem protegem contra nenhuma infeção. São medicamentos injetáveis, sujeitos a receita médica, da família dos agonistas do recetor GLP-1. O Mounjaro atua também no recetor GIP.
Há muita procura por eles. Em 2025, 57,1% dos adultos em Portugal tinham pré-obesidade ou obesidade, segundo o Inquérito Nacional de Saúde do INE. No primeiro trimestre de 2026, o Infarmed registou mais de 2.300 embalagens vendidas por dia dos dois medicamentos para a obesidade mais procurados. Quando há tanta procura, a boa informação conta ainda mais.
Não são vacinas. O que são, afinal?
O GLP-1 é uma hormona que o intestino liberta depois das refeições. Estes medicamentos imitam a sua ação: aumentam a sensação de saciedade, atrasam o esvaziamento do estômago e ajudam o pâncreas a libertar insulina quando o açúcar no sangue está alto. A tirzepatida (Mounjaro) atua também noutra hormona do mesmo tipo, o GIP.
O resultado é comer menos sem tanto esforço. Isso não substitui a alimentação nem o exercício: todos estes medicamentos estão aprovados como complemento de uma alimentação com menos calorias e de mais atividade física.
Cada medicamento tem a sua indicação
O mesmo princípio ativo pode ter nomes comerciais diferentes, para doenças e doses diferentes. Ozempic e Wegovy contêm ambos semaglutido, mas não são a mesma coisa nem se trocam por conta própria. Segundo a informação aprovada na União Europeia:
- 1
Ozempic (semaglutido) · injeção semanal
Diabetes tipo 2 insuficientemente controlada. Não está aprovado para a obesidade.
- 2
Wegovy (semaglutido) · injeção semanal
Controlo do peso em adultos com IMC ≥ 30, ou 27–30 com pelo menos um problema ligado ao peso; adolescentes ≥ 12 anos com obesidade e mais de 60 kg. Forma em comprimido aprovada na UE em julho de 2026 (perguntar se já existe em Portugal).
- 3
Mounjaro (tirzepatida) · injeção semanal
Diabetes tipo 2; controlo do peso em adultos, com os mesmos critérios de IMC.
- 4
Saxenda (liraglutido) · injeção diária
Controlo do peso em adultos (mesmos critérios) e adolescentes ≥ 12 anos com obesidade e mais de 60 kg.
- 5
Trulicity (dulaglutido) · injeção semanal
Só diabetes tipo 2.
O IMC calcula-se dividindo o peso (em kg) pela altura (em metros) ao quadrado. Uma pessoa com 1,70 m e 87 kg tem um IMC de cerca de 30. O IMC é só um ponto de partida: quem decide se o medicamento é adequado é o médico.
Sempre com receita e com acompanhamento médico
Todos estes medicamentos são sujeitos a receita médica. Antes de os prescrever, o médico avalia a indicação, as outras doenças e os medicamentos que já toma. Depois sobe a dose aos poucos e acompanha o peso, a tolerância e, na diabetes, o açúcar no sangue. Desde 8 de agosto de 2025, quando são comparticipados para a diabetes, só podem ser receitados por algumas especialidades: endocrinologia e nutrição, medicina interna, pediatria e medicina geral e familiar.
A farmácia só os pode dispensar com receita. Desde julho de 2024, uma circular do Infarmed pede às farmácias que confirmem, antes de dispensar, que o utente ainda não tem embalagens suficientes em casa.
Efeitos secundários frequentes
Os mais comuns são digestivos: náuseas, vómitos, diarreia, prisão de ventre, dor de barriga, enfartamento e falta de apetite. São mais frequentes nas primeiras semanas e quando a dose aumenta, e costumam melhorar com o tempo.
- 1
Comer menos de cada vez
Refeições mais pequenas, com pausa para sentir a saciedade.
- 2
Evitar refeições muito gordurosas
Pioram as náuseas e o enfartamento.
- 3
Beber água ao longo do dia
Sobretudo com vómitos ou diarreia.
- 4
Falar com o médico
Se os sintomas não passarem. Não ajuste a dose por conta própria.
Riscos graves que deve conhecer
- 1
Pancreatite
Dor de barriga forte e persistente, que pode ir para as costas, com ou sem vómitos. É motivo para ir à urgência.
- 2
Vesícula biliar
Pedras e inflamação: dor na parte de cima, do lado direito, da barriga, febre, pele ou olhos amarelados.
- 3
Desidratação e rins
Vómitos ou diarreia intensos podem desidratar e piorar a função dos rins.
- 4
Hipoglicemia
O risco aumenta com insulina ou sulfonilureias: tremores, suores, fome súbita, confusão.
- 5
Visão
Em junho de 2025 a EMA concluiu que a NAION (doença do nervo ótico) é um efeito muito raro do semaglutido, até 1 em cada 10.000 pessoas tratadas. Perda de visão súbita é motivo para ajuda médica imediata.
- 6
Cirurgias, endoscopias e sedação
Em julho de 2024 a EMA recomendou informar sempre quem faz a anestesia ou a sedação.
- 7
Perda de músculo
Num subgrupo do estudo STEP 1, cerca de 4 em cada 10 kg perdidos eram massa magra. Pesa mais nas pessoas mais velhas ou frágeis.
Quem não deve usar, ou precisa de cuidado redobrado
- 1
Alergia ao medicamento
É a contraindicação formal na informação europeia.
- 2
Gravidez
Não devem ser usados. Se planeia engravidar, fale com o médico com antecedência: no semaglutido, a informação europeia indica parar pelo menos 2 meses antes. Na amamentação, o uso não é recomendado.
- 3
Pílula e Mounjaro
A tirzepatida pode reduzir o efeito da pílula: usar um método não oral, ou acrescentar preservativo, durante 4 semanas depois de começar e de cada aumento de dose.
- 4
Tiroide
Nos EUA a informação proíbe o uso com história pessoal ou familiar de carcinoma medular da tiroide ou MEN2. Na UE não é contraindicação formal, mas deve contar essa história ao médico.
- 5
Outras situações
Pancreatite no passado, doença da vesícula, gastroparesia, doença grave dos rins ou do fígado, retinopatia diabética.
- 6
Peso normal
Não estão aprovados para perder uns quilos por razões estéticas.
Quando se para, o peso tende a voltar
A obesidade é uma doença crónica, e o efeito depende de continuar o tratamento. Na extensão do STEP 1, um ano depois de parar o semaglutido, os participantes tinham recuperado cerca de dois terços do peso perdido. No SURMOUNT-4, quem passou da tirzepatida para placebo recuperou 14% do peso num ano; quem continuou perdeu mais 5,5%.
Isto não quer dizer que o tratamento seja para toda a vida. Quer dizer que a duração e a forma de parar se planeiam com o médico, e que os hábitos são o que fica quando o medicamento sai.
Alimentação, proteína e atividade física continuam a ser a base
- 1
Proteína em todas as refeições
Peixe, ovos, leguminosas, laticínios ou carne magra ajudam a preservar o músculo.
- 2
Legumes, fruta e água
Ajudam a saciedade e o intestino.
- 3
Menos ultraprocessados e álcool
O álcool soma calorias e piora o controlo do açúcar.
- 4
Exercício de força
A OMS recomenda 150 a 300 minutos de atividade moderada por semana e força em pelo menos 2 dias.
- 5
Apoio especializado
Sempre que possível, um nutricionista.
Canetas falsificadas e compras online: um risco real
- 1
Outubro de 2023
A EMA alertou para canetas falsificadas com rótulo de Ozempic em distribuidores grossistas na UE e no Reino Unido. O Infarmed informou que não foram encontradas na distribuição nacional.
- 2
Setembro de 2025
A EMA e as agências europeias alertaram para um forte aumento de produtos ilegais vendidos como semaglutido, liraglutido ou tirzepatida em sites e redes sociais.
- 3
O que diz o Infarmed
Só podem ser dispensados em farmácia, com receita, e não podem ser vendidos online fora dos circuitos autorizados.
Sinais de alerta: vendem sem receita; aparece em redes sociais, grupos de mensagens ou sites desconhecidos; diz-se «aprovado» por uma autoridade; vem como «manipulado», «peptídeo» ou «para investigação»; promete resultados milagrosos. Se a embalagem lhe parecer diferente, leve-a à farmácia antes de a usar.
Ruturas: quem tem diabetes não pode ficar sem tratamento
Desde 2022 houve várias ruturas de semaglutido em Portugal. O Infarmed pôs um alerta na receita eletrónica, pediu às farmácias que verifiquem as embalagens já dispensadas e autorizou rótulos noutras línguas em 2025. Em março de 2026 abriu inspeções depois de queixas sobre falhas no fornecimento de Ozempic e Trulicity. Usar um medicamento aprovado para a diabetes só para perder peso aumenta a pressão sobre o stock de que outras pessoas dependem.
Comparticipação em Portugal (a 04/11/2026)
- 1
Diabetes tipo 2
Comparticipados pelo SNS quando receitados para a diabetes, dentro dos critérios e pelas especialidades autorizadas.
- 2
Obesidade, até agora
Sem comparticipação: o custo é todo do doente.
- 3
Obesidade, a partir de fevereiro de 2027
A Portaria n.º 464/2026/1, de 22 de outubro, cria uma comparticipação de 15%, só para quem é seguido na Equipa Multidisciplinar de Obesidade da sua ULS (PCIPO), com receita de endocrinologista, internista ou pediatra dessa equipa, durante 12 meses.
Perguntas para levar ao médico
- 1
Este medicamento está aprovado para o meu caso?
- 2
Que objetivo vamos definir, e durante quanto tempo?
- 3
Que análises preciso de fazer antes e durante?
- 4
Interage com os meus medicamentos (insulina, outros antidiabéticos, pílula)?
- 5
O que faço se tiver vómitos ou diarreia e não conseguir beber?
- 6
E se quiser engravidar?
- 7
Como protejo a massa muscular?
- 8
Qual é o plano para quando o tratamento acabar?
Perguntas para o farmacêutico
- 1
Como guardo a caneta antes e depois de começar a usá-la?
- 2
Como injeto e como vou trocando o local?
- 3
O que faço se me esquecer de uma dose?
- 4
Como confirmo que a embalagem é autêntica?
- 5
Onde deito fora as agulhas e as canetas usadas?
- 6
Posso tomar isto com os meus outros medicamentos e suplementos?
Quando procurar ajuda urgente
- 1
Ligue 112
Inchaço da cara ou da garganta, dificuldade em respirar, desmaio ou confusão.
- 2
Vá à urgência
Dor de barriga intensa e persistente que pode ir para as costas; perda de visão súbita.
- 3
Médico ou SNS 24 (808 24 24 24) no próprio dia
Vómitos ou diarreia que não o deixam reter líquidos, urina muito escassa, tonturas; dor do lado direito da barriga com febre, ou pele ou olhos amarelados.
Este artigo é informativo e não substitui a consulta médica. A Farmazzine não promove nenhum medicamento nem nenhuma marca.
O que fazer agora
Se está a pensar nestas canetas, comece por uma consulta médica, não por um site ou por uma rede social. Se já as usa, leve a caneta e a lista dos seus medicamentos à farmácia e peça ao farmacêutico para rever consigo a técnica, os efeitos secundários e os sinais de alarme.
Referências
- INE — Inquérito Nacional de Saúde 2025, destaque de 24/06/2026.
- Infarmed, citado por ECO — Portugueses gastam 613 mil euros por dia em medicamentos para emagrecer, 18/05/2026.
- EMA — EPAR Ozempic, Wegovy, Mounjaro, Saxenda.
- EMA/CHMP — parecer positivo Wegovy comprimidos, 21/05/2026.
- RTP — prescrição restrita a especialidades desde 08/08/2025.
- Infarmed — Recomendações GLP-1, julho de 2024.
- EMA/PRAC — NAION e semaglutido, 06/06/2025.
- EMA/PRAC — destaques de 8–11 julho 2024.
- Wilding JPH et al. — STEP 1, N Engl J Med 2021;384:989-1002.
- Wilding JPH et al. — extensão do STEP 1, Diabetes Obes Metab 2022;24(8):1553-1564.
- Aronne LJ et al. — SURMOUNT-4, JAMA 2024;331(1):38-48.
- OMS — Guidelines on physical activity and sedentary behaviour, 25/11/2020.
- EMA — canetas Ozempic falsificadas, 18/10/2023.
- Notícias ao Minuto — Portugal sem registo de casos, outubro de 2023.
- EMA/HMA — aumento de medicamentos ilegais, 04/09/2025.
- DECO PROteste — Ozempic e Mounjaro contrafeitos, 23/09/2025.
- Observador — rotulagem em língua estrangeira, 09/04/2025.
- Ground News (Público) — inspeções Ozempic e Trulicity, 13/03/2026.
- Diário da República — Portaria n.º 464/2026/1; Ordem dos Farmacêuticos — comparticipação de 15% a partir de fevereiro de 2027.
- Decreto-Lei n.º 176/2006 (Estatuto do Medicamento) — proibição de publicidade ao público de MSRM.
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